Tchau, fila!

Uma copa que foi muito contestada, palco de protestos, entre outras situações que fogem daquilo que costumamos chamar de “normal”, chegou ao final no domingo (18), com uma decisão que parecia ser tranquila e nos dez minutos finais viu tudo mudar “da água para o vinho”. A Argentina que buscava um novo mundial após 36 anos, só pode dar adeus à fila no último pênalti. Nem o melhor escritor poderia fazer algo tão angustiante e grandioso como fizeram “os deuses do futebol”.

Argentina e França chegaram à decisão de maneiras distintas. A Argentina, mesmo sendo campeã da Copa América 2021, carregava o peso de ter vencido seu último mundial em 1986. A França, mesmo com muitos desfalques em seu elenco, chegava como uma das favoritas e tranquila por ser sua segunda final consecutiva, à busca do terceiro mundial e com o seu craque, Mbappé, como artilheiro e apesar dos somente 23 anos, experiente. Do lado contrário, Messi, com 35 anos, disse que seria sua última partida em copas e ansiava por esse título.

Além de todos esses elementos, algo que quase passou despercebido foi uma fala de Mbappé, em maio deste ano, que comentou que o futebol da América do Sul não está no mesmo nível dos europeus. Algumas pessoas retomaram esse assunto às vésperas da decisão, não há como saber, ao menos por enquanto, se esse assunto chegou aos argentinos, mas que eles retomaram uma garra como há tempos não se via, isso é indiscutível. Podemos, com certeza, dizer que o título dos “hermanos” foi muito merecido.

Mas em relação a declaração de Mbappé, podemos dizer que críticas são sempre muito bem-vindas, mas tenho a impressão que ele disse de maneira a desprestigiar o futebol jogado abaixo da linha do Equador. Talvez por ele ser jovem, não tenha se atentado ao que temos de história. Se hoje o futebol europeu é forte, é graças devido aos grandes nomes sul-americanos, africanos, árabes que por lá estão, entre outros bons nomes de várias etnias. Os clubes europeus podem ser considerados ricos, mas de qual maneira enriqueceram? Será que Mbappé sabe de onde vem todo o dinheiro do clube que ele defende, o PSG?

Às vezes somos superficiais demais ao fazermos uma análise e o jogador francês ainda é muito jovem, talvez ele aprenda com o tempo. Somente aqui na América do Sul temos o “rei” do futebol, Pelé, que somente com a seleção brasileira venceu três copas. Somente aqui temos Garrincha, Maradona, Messi, Di Stéfano, Rivellino, Gérson, Forlan… entre outras centenas e centenas de craques que não é possível nomeá-los aqui.

A América Latina, desde a chegada dos primeiros europeus, sempre foi saqueada. Toda nossa riqueza foi retirada daqui para que somente alguns membros de “famílias reais” conseguissem usufruir. Após retirarem quase tudo, nos abandonaram. Mas agora retiraram também nossos grandes jogadores. Usam de nossa riqueza, que eles saquearam, para usarem contra nós e para baterem no peito com certa arrogância, como se tudo por lá fosse, realmente, “desenvolvido”.

Como diz a canção “Latino América”, da banda Flicts, “Nós somos filhos de sangues intensos, cada sangue uma coloração, uma origem, uma direção, todos eles a se encontrar, todos eles a se misturar em nós, nós… Filhos bastardos de um estupro sagrado e paternal”. Somos de tudo um pouco, talvez isso seja nossa maior riqueza. Apesar do nosso Brasil estar de “costas” para o restante da América do Sul, somos parte dela e somos latinos. Óbvio que na disputa com europeu, estaríamos ao lado da albiceleste.

Apesar de todo paradoxo da copa, parabéns hermanos. Foi uma conquista fantástica! Voltamos ao topo do mundo do futebol. Apesar dos pesares, aqui é América Latina, aqui é resistência! Tchau, fila!

Ivan Gomes é produtor e apresentador do programa 3 Notas, transmitido semanalmente pela Mutante Rádio e torcedor do Santos Futebol Clube

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