Protestos 1, futebol 0

No segundo dia de jogos da Copa do Mundo, realizada no Catar, manifestações políticas estiveram presentes. Antes e até mesmo durante a partida entre Irã e Inglaterra, houve manifestações de torcedores e também dos atletas dentro de campo.

A torcida iraniana esteve presente à estreia de sua seleção e em sua maior parte, junto com os atletas em campo, não cantou o hino do país na cerimônia realizada antes da bola rolar. Os jogadores optaram pelo silêncio em algo que foi visto em apoio as manifestações realizadas no país há cerca de dois meses, após uma jovem ser assassinada pela polícia moral, isso mesmo, no Irã existe a polícia moral.

Desde o episódio da morte da jovem, protestos tem se espalhado pelo país iraniano que vive uma Teocracia desde a revolução islâmica, de 1979. As mulheres são obrigadas a utilizarem véu em todos os locais e quem for flagrada está passível de sofrer penalizações. Devido a este fato, muitos torcedores e torcedoras que estavam na arquibancada exibiam cartazes com a bandeira do Irã e com o inscrito “women live freedom”, traduzido: “as mulheres vivem a liberdade”.

Vale destacar que devido ao regime político iraniano, as mulheres estão proibidas de acompanharem futebol em seu próprio país, além de outros impedimentos de direitos básicos para que qualquer cidadão ou cidadã consiga viver com o mínimo de dignidade.

Protesto iraniano de um lado e inglês do outro. Devido as muitas restrições impostas pela monarquia absolutista que comanda o Catar, sendo uma delas em relação ao grupo LGBTQIA+, muitas seleções europeias ficaram de fazer manifestos contra a atitude das autoridades locais e firmaram acordo em usar a braçadeira de capitão das equipes com as cores do arco-íris. A atitude seria punida com multa por parte da Fifa, responsável pela competição. As federações estavam dispostas a pagar, mas os dirigentes da entidade máxima do futebol alertaram que além da multa, haveria punição aos capitães que ousassem exibir a braçadeira.

Devido a ameaça de punição aos atletas, as federações recuaram do intuito, mas os ingleses, antes do início do jogo, ajoelharam-se no gramado em atitude de protesto contra todas as formas de discriminação.

EQUADOR

Durante o primeiro jogo da copa, torcedores do Equador que acompanhavam a partida de sua seleção contra o time dos anfitriões, em determinado momento pediram para consumir cerveja, outro hábito que foi proibido durante a copa, pois o consumo de bebidas alcoólicas é proibido no Catar devido as questões de religiosidade e costume. O consumo de cerveja foi liberado em setores muito restritos, mas fora dos estádios.

Aos olhos comuns, gestos como estes podem ser banais, mas para quem vive o dia a dia do futebol, sabe o quanto são importantes. Ao contrário do que muita gente imagina, o futebol não aliena, o futebol acaba sendo uma das vitrines mais importantes para defesas de causas políticas e sociais.

Há os que querem que o futebol seja discutido somente sobre o que acontece dentro das quatro linhas, mas futebol não se resume somente a isso. O futebol transcende os limites dos gramados e das arquibancadas. O futebol é muito mais do que pessoas que correm atrás de uma bola.

Não à toa os que acompanham esta modalidade, e não tentam descolá-la do mundo no qual está inserida, usam uma famosa frase: “nunca será somente futebol”. O filósofo franco-argelino, Albert Camus, no século passado disse também teceu elogios ao futebol, sendo um deles, muito conhecido: “O que finalmente mais sei sobre as obrigações e a moral do homem, devo ao futebol”.

O futebol é tão transcendente que o que acontece dentro do gramado, às vezes, é somente um mero detalhe.Ivan Gomes é produtor e apresentador do programa 3 Notas e torcedor do Santos Futebol Clube

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